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Artigos de natureza técnica ou histórica

Porquê " CQ " ?

[ Miguel Andrade - Março de 2001 ]

Neste artigo vamos descobrir algumas curiosidades da linguagem que usa nas comunicações entre radioamadores.

Algumas expresão têm logo à partida uma explicação lógica e facilmente compreensível, outras não são tão fáceis de descobrir.

Porquê S.O.S. ou porquê CQ ?

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No tempo em que os animais falavam a rádio era feita só e exclusivamente em telegrafia.

A telefonia foi um luxo que só apareceu mais tarde durante a infância das comunicações através das ondas hertzianas.

Como é fácil de compreender, mesmo para quem não domine as técnicas de comunicação em telegrafia por código Morse, transmitir letras através de combinações de pontos e traços com o nosso próprio pulso é quase sempre o mais demorado meio de se enviar uma mensagem.

Mas nem todas as desvantagens estão do lado desta forma de comunicação, ainda hoje a telegrafia continua a ser um óptimo meio para se ultrapassarem difíceis condições de propagação que os mais modernos meios de telefonia não permitem, sobretudo quando há fracas hipóteses de contacto entre duas estações.

Por essa e por muitas outras razões, mesmo que nalgumas legislações as licenças do serviço de amador não exijam esta ferramenta, ainda continua a existir um grande número de serviços que usam este primitivo meio de transmissão de mensagens.

De toda a forma, da rica herança dos tempos em que comunicar sem fios era só por telegrafia, hoje, a moderna telefonia está recheada de expressões que para os principiantes não fazem muito sentido.

Quando pensamos que na génese das codificações está a necessidade de encurtar palavras ou frases inteiras em poucas letras para que, por exemplo, em telegrafia através do código Morse se possa tornar de facto uma comunicação menos demorada, pesada e mais útil em caso de emergência, ( quando é necessária velocidade ), começamos a tomar consciência de que por detrás de certas coisas que se dizem hoje na telefonia há sempre uma séria justificação para aquela expressão incompreensível a luz dos conceitos actuais.

Há poucos dias atrás eu estava a testar uma faixa de frequências aparentemente sem condições para as comunicações em longa distância. Como habitualmente, num acto de puro descargo de consciência lá estava eu a chamar aos quatro cantos do mundo com a habitual expressão… « CQ, CQ, CQ, DX».

Quando à expressão DX eu já tinha aprendido há muito que vinha da ideia de distância X, ou distância desconhecida, mas as letras C e Q ainda me faziam alguma confusão.

Porque justificação é que em toda a minha curta experiência de radioamador sempre ouvira alguém chamar assim ?

Porquê CQ ?

Talvez fosse algo como a justificação para o S.O.S.

Certa vez contaram-me que esta vulgar expressão de pedido de auxílio nascera precisamente no tempo das comunicações por telegrafia quando o operador de rádio de uma embarcação que se afundava rapidamente transmitira em desespero final um grupo de 3 letras… S O S !

Explicaram-me de uma outra vez em que o assunto foi tema de conversa que o significado era a frase " save our souls " – salvem as nossas almas, ( ou melhor - que as nossas almas sejam salvas ).

Também no caso CQ temos que mergulhar numa viagem pelo tempo e não esquecer a língua inglesa como origem de muitas destas situações telegráficas.

Foi após uma curta investigação que vim a descodificar o enigma das duas letras.

Afinal o termo " CQ " era uma daquelas expressões cujo significado não estava propriamente à evidência, como o " SOS ", mas derivava de um acrónimo escondido para a expressão " seek you ", ( à sua procura ). Na realidade não se tratava de um vulgar acrónimo, ( senão seria algo como SY ), mas uma daquelas interessantes ideias de fazer coincidir a sonoridade de letras ou números pois lendo-se em Inglês CQ soa quase exactamente como seek you, ou seja, leia-se algo como « si quiú » foneticamente na nossa língua.

Esta interessante brincadeira com os sons trouxe-me logo à imagem o falso acrónimo " KA7 ", para cassete em Português.

Só não cheguei por mim à solução do enigma antes pelas variadas e interessantes formas que a expressão ganha na riqueza das pronúncias que se escutam por esse mundo fora.

A chave para " CQ DX " seria então… quem me consegue escutar a qualquer distância, ou está alguém à escuta ( independentemente do local em que se encontre ).

Em Português o mais vulgar é dizer-se « chamada geral, chamada geral, chamada geral », contudo em algumas línguas os colegas traduzem as letras CQ para o seu modo de as pronunciar e houve-se de tudo.

Na prática, em ondas curtas ( HF ) nota-se uma ligeira subtileza, pois quem chama apenas " CQ " está vulgarmente a fazer um apelo a qualquer estação ao seu alcance, isto é, está a fazer uma « chamada geral »; enquanto que quem faz o apelo " CQ " seguido de " DX " está provavelmente a chamar em longa distância, ( sobretudo fora do seu Continente ), o que muitas vezes provoca alguma frustração quando se responde a um tal apelo de uma estação rara aqui de um ponto " demasiado próximo " e nos dizem do outro lado « desculpe mas eu estou só interessado em falar para fora da Europa », ou algo como « só quero contactar estações na região do Pacífico amigo ».

Não haja dúvida que quando descobri a origem da expressão me souberam muito melhor os infindáveis dias em que apenas possuindo condições para trabalhar uma das mais altas faixas de frequências das ondas curtas não tinha outro remédio senão enfrentar o silêncio com longas sessões de " CQ, CQ, CQ " sempre que a propagação não ajudava.

Quem sabe se nas nossas chamadas sem resposta não haverá alguém muito longe, ( até noutro fuso horário qualquer muito afastado ), que naqueles momentos não possa responder mas fique contente só por ouvir que aquela voz do outro lado do mundo lhe esteja a dizer que anda à sua procura ?

 

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