ARLA/CLUSTER: Radioamadores em Angola...

Mário Costa aguia.negra_ hotmail.com
Sábado, 10 de Novembro de 2007 - 11:07:44 WET


Caros Colegas
Bom dia
Encontrei este artigo de uma época não muito distante (o mesmo não está completo pois narra momentos chocantes da guerra de África)
Agradeço à digna Administração do Fórum se entender que o mesmo fere a susceptibilidade dos Colegas de não publicar o mesmo.
 
 
"Os terroristas fizeram três assaltos ao Tabi, com mais de três horas de duração. Houve duas mortes e vários feridos da partes dos defensores. Os terroristas sofreram baixas consideráveis, apesar de se terem refugiado na mata, como era seu costume. A tropa ocupava agora a Fazenda Tabi e tomava a seu cargo a sua defesa. Batia as redondezas na caça de bandoleiros. A guerra não deixava momentos para descanso. Tudo cheirava a sangue e a pólvora queimada. Eram os clássicos tiros contra as bárbaras catanadas do bando de facínoras a soldo de estranhos. Era a guerra em toda a sua incompreensão e cegueira. Assassinos narcotizados, obedecendo a ritos estranhos e grotescos, infestavam o Norte de Angola. A repressão ao crime e ao terrorismo exigia um esforço gigantesco, quer humano quer material. Mas tudo se vencia, com sacrifícios inegualáveis e vontades inquebrantáveis (...)".
Referi anteriormente que os radioamadores de Angola em 1961 contribuiram também com o seu esforço para passar informações em tempo útil quando por vezes os sistemas de comunicações por P-19 falhavam. Por isso naquele fatídico ano de 1961, no auge da luta armada para eliminar os bandoleiros do Norte de Angola, nós, os radioamadores de Luanda, fizemos uma reunião e por comum acordo, um de nós ficaria de turno toda a noite na sede da Liga.
Uns meses antes dos acontecimentos de 1961 esteve de visita à Liga um indivíduo que me informou que gostaria de ser radioamador mas que na altura não tinha meios para construir um emissor com pelo menos 50 Watts mas que poderia construir uma mais pequeno para praticar já que tinha adquirido um receptor onde costumava ouvir os radioamadores. Esse indivíduo cujo nome não me recorda era Administrador do Posto de Cangola no Norte de Angola.
Dei-lhe um esquema para fazer um pequeno emissor para a banda de 7Mhz (40m) fixa (com um cristal), autorizada para os radioamadores e que era a que melhor se adaptava para trabalhar dentro de Angola principalmente à noite. A alimentação poderia ser por meio de bateria ou directamente ligado à rede de energia.
Uma noite estava eu de turno fazendo escuta na banda de 7Mhz quando cerca da uma da manhã (?) ouvi uma chamada com um sinal bastante fraco mas que se entendia bem, chamando repetitivamente: CR6LA, aqui Cangola por favor atendam que é uma emergência. Pressenti que algo de grave estava acontecendo em Cangola. Respondi imediatamente e pedi que me dissesse o que estava acontecendo e o que eu poderia fazer. Entretanto lembrei-me do tal indivíduo administrativo a quem lhe tida fornecido o esquema do emissor.
CR6LA, estamos aqui no posto e o P-19 não funciona. Estou a trabalhar com o emissor que eu montei. Estamos cercados pelos turras e não temos munições suficientes. São muitos e como é noite pararam mas amanhã de manhã atacarão certamente. Por amor de Deus vá ao Quartel General e diga para nos mandarem ajuda caso contrário será o nosso fim. Nem queria acreditar no que estava a acontecer e respondi: 
- Fique aí atento nessa frequência que eu vou imediatamente ao Quartel General.
Saí fechando a porta e como tinha deixado a minha scooter estacionada junto da Liga dirigi-me a toda a velocidade que a máquina permitia para o Quartel General que ficava na parte alta da cidade e, num ápice estava lá. Tomei a precaução de estacionar um pouco distante da entrada e avancei para a sentinela. Então ouvi logo uma voz perguntando:
- Quem vem lá? 
- Sou um radioamador, respondi, acabei mesmo à pouco de receber na Liga dos radioamadores um pedido de socorro do posto administrativo de Cangola por isso, preciso falar já com o oficial de serviço. Mandou-me aproximar de mãos no ar e quando cheguei junto dele voltou a perguntar-me o motivo porque estava ali àquela hora da manhã. Então chamou um sargento ao qual expliquei o que se passava e que precisava falar imediatamente com o oficial de serviço. 
- Acompanhe-me por favor. Já na presença do oficial voltei a repetir o mesmo: que era radioamador e estava de turno naquela noite e tinha recebido um pedido de socorro do Posto de Cangola dizendo-me que estavam a ser atacados e as munições estavam no fim. O oficial ficou meio incrédulo mas eu apresentei-lhe imediatamente a minha identificação (cartão) de radioamador. 
- Tem a certeza de que não há engano? 
- Tenho sim porque ele está a trabalhar com um pequeno emissor dele pois o P-19 avariou.
- Então diga a Cangola que vejam se conseguem aguentar-se até de manhã que nós vamos enviar socorros. Obrigado pelo seu excelente trabalho.
Num ápice estava de volta à Liga, liguei o emissor e chamei Cangola. Respondeu-me imediatamente.
- Já fui ao Quartel General e logo que amanheça vão mandar reforços. De vez em quando eu chamava para ver se tudo estava bem mas disse-lhe que poupasse a bateria que eu estaria sempre na frequência. 
Era já madrugada quando ouvi novamente Cangola chamando mas desta vez com uma voz eufórica. CR6LA, os passarinhos (aviões) estão aqui mesmo por cima e estão a dar cabo deles. Obrigado em nome de todos pela sua ajuda que nos salvou a vida. 
Esgotado, mas consciente do dever cumprido, fui para casa dormir pois tinha comunicado aos serviços que nessa noite eu ficaria de turno na Liga.
Mais tarde apareceu na Liga o Administrador de Posto de Cangola a quem eu tinha fornecido o esquema do emissor que lhes salvou a vida. Trazia um canhangulo (espingarda artesanal) que pertenceu a um dos turras mortos com uma placa de prata na coronha com a seguinte inscrição: “Com o reconhecimento do povo de Cangola”.
Casos semelhantes aconteceram com outros radioamadores que passaram horas sem fim escutando nos seus receptores as bandas utilizadas pelos P-19.
 
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